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quinta-feira, 7 de abril de 2022

Academicismo e Eduardo Marinho

 



Tem um rapaz ai chamado Eduardo Marinho que ficou famosão na internet. Aparentemente, é uma espécie de hippie que pertencia a uma família rica e que resolveu viver uma vida simples, sem louvar o cotidiano materialista dos grandes centros urbanos. 


Algo que sempre admirei.


Bom, mas pq estou falando dele?


É que da boca dele sai um discurso que tem sido muito comum, tem seu grau de razão, mas que é construído de forma equivocada.


Seria o famoso discurso contra o "academicismo".


Esse discurso se situa mais ou menos em duas linhas de argumentos: 


I - criticar a academia por usar um linguajar técnico, exprimindo assim uma arrogância.


E


II -  em linha com o primeiro e também por conta dele, estar afastada do 'povão'.


O problema, como eu já pontuei aqui uns tempos atrás, é que ALGUMAS das críticas ao chamado 'academicismo' é não compreender que a criação de determinado 'linguajar' (conceitos) em uma área do conhecimento é uma necessidade (principalmente nas ciências sociais) para se referir a determinados objetos/fenômenos, cujo léxico de um idioma não contempla.


Não sou da área da filosofia, mas para aqueles que são, compreendem muito bem essa necessidade.


A relação entre as palavras e as 'coisas' não é algo simples. Inclusive, é uma polêmica filosófica antiga.


As palavras não necessariamente representam fielmente a essência de algo e podem ser apenas construções do nosso intelecto, fora que um conceito está inserido em um universo semântico que usar ele indevidamente pode mobilizar uma visão que não tem nada a ver com um sistema de pensamento, daí a necessidade de se criar uma terminologia própria para uma filosofia.


Portanto, não necessariamente, usar linguagens técnicas ou inventar palavras, conceitos, é conspiração para afastar a classe trabalhadora da 'jogada'.


Pode até existir quem faça isso conscientemente, mas não necessariamente é assim.


Outro ponto: nem todo trabalho acadêmico é válido apenas se sua 'vó' ou 'tia' entender. Isso se fundamenta em uma visão de mundo puramente utilitarista.


Aliás, para quê elas PRECISAM entender todo e qualquer trabalho acadêmico?! A dignidade delas só vai se afirmar se elas estiverem em sintonia com as grandes inovações dos centros acadêmicos? 


Aliás, isso sim, ao meu ver, poderia se chamar de ACADEMICISMO, é deixar a academia pautar até o nosso valor, a nossa dignidade, e etc.


O problema na direita e na esquerda, nesta questão, é, se na primeira, nós vemos um utilitarismo que só dignifica a atividade acadêmica se estiver associada ao binômio trabalho-capital; na outra, o utilitarismo se dá na forma de atribuir valor a esta apenas se ela conseguir se aproximar do cotidiano mais palpável, mais rasteiro: do metrozão que seu zé pega para trabalhar ao supermercado que a dona maria vai todo dia, ou seja, da ordem existêncial mais baixa e opressiva possível.


Mas aqui faço uma consideração para finalizar: também não quer dizer que não exista nenhum problema nos nossos acadêmicos, pelo contrário. 


Mas esse não se encontra em um suposto capricho excessivo em usar palavras dificeis. Nada disso. O problema dos nossos acadêmicos é terem se tornado uma mera caixa de ressonância de tudo que vem de 'fora', meros papagaios de universidades americanas e europeias. 


É querer interpretar o próprio país, fazer análises de cunho sociológico, com base numa experiência que não é nossa ou querer importar agendas, estilos de vida, que não nos pertencem.


É não olharem para o Brasil.