Segundo relatam entusiastas das politicas neoliberais, o 'livre
mercado' é a maneira mais eficaz de uma economia obter sucesso. Usam como
exemplo de causa as grandes potências do norte que, segundo eles, o presente êxito econômico pode ser explicado recorrendo-se à recordação de um passado [imaginário] ausente de intervenção estatal e free-trade. As mesmas também, vejam só, de maneira 'fraterna', sugerem (lê-se, impõem), por meio de suas instituições financeiras, agendas [1] aos países subdesenvolvidos e preconizam que uma vez implementadas as politicas econômicas prescritas, poderão gozar de um futuro glorioso.
Vamos demonstrar, por meio de poucas palavras, que essa narrativa está muito longe da forma como realmente a Rainha dos Mares se tornou a principal potência econômica da Europa:
A Grã-Bretanha só pôde
ascender ao status de hegemonia mundial no século XIX por meio da intervenção
do Estado na economia. Politicas tarifárias de fomento a indústria nascente,
bem como subvenções estatais a manufatura local, estiveram em vigor por quatro
séculos e meio. Ela só aderiu ao chamado “livre-comércio” depois de
estabelecer-se com eficiência, a nível mundial, em vários ramos industriais.
Começamos pelo reinado
de Eduardo III (1327-77) - imagem à esquerda - restaurador da desordem deixada como herança pelo reinado do pai Eduardo II: centralizou internamente o comércio de lã Bruta, proibiu
a importação de tecido de lã e atraiu tecelões dos Países Baixos (o qual eram seus
concorrentes no comércio) e que num ato de marketing só usava roupas feitas com
tecido inglês[2]. Mais a frente, sob a dinastia Tudor, verificamos uma participação maior do Estado na economia, especialmente no reinado de Henrique VII
(1485-1509) e de Elizabete I (1558-1603). Henrique VII (imagem acima à direita), por exemplo, elaborou pesquisas
para identificar os locais adequados para a instalação das manufaturas, aumentou
tarifas e até chegou a proibir temporariamente a exportação de lã Bruta para os
Países Baixos. Essa ideia de que um país não desenvolvido pode concorrer sem ajuda
estatal com países já bem estabelecidos num comércio mundial nem a própria
Grã-Bretanha absorveu. Além das politicas que já foram mencionadas, no reinado
de Henrique VII foi promovida a contratação de mão de obra dos Países Baixos, devido
a ser muito custoso e audaz querer competir com o povo flamengo que já era
especializado no ramo e bastante experientes em manufaturas[3].
Temos no reinado de
Elizabete I (imagem acima) um crescimento vertiginoso no comércio internacional da
Grã-Bretanha, o que levou a uma proibição definitiva da exportação de lã Bruta
aos Países Baixos, prejudicando os fabricantes dessa região. Novamente,
agora sob o reinado de Elizabeth I, temos uma nova politica de migração, nesse
momento foram de tecelões protestantes de flandres após a guerra contra a
Espanha (1567) em direção a Grã-Bretanha. Empreendeu também delegação de emissários
com o intuito de abrir novos mercado comerciais, enviou-lhes ao papa, aos
imperadores da Rússia, da Pérsia e da Mongólia [4], sem contar o fato que recorreu à “diplomacia do canhão” (entre aspas para evitar anacronismo, já que o termo geralmente
costuma ser usado no contexto do século XIX para se referir ao modelo agressivo
de dominação imperialista de potências europeias, EUA e Japão) ao obter sua
supremacia Naval, auxiliando-se disso para negociar abertura de mercados. Até
aqui, parece bastante fácil perceber que sem esses antecedentes seria impossível
desenvolver a indústria e chegar a um nível de meados do século XVIII, onde a Grã-Bretanha representava metade da renda de exportação em todo o mundo [5].
Outro personagem
adentra nossa narrativa: trata-se do premiê Britânico Robert Walpole (1676-1745) - imagem acima. Considerado o primeiro ministro da Grã-Bretanha, assumiu o cargo no
reinado de Jorge I (1724-1727), esse foi responsável pela reforma da legislação
mercantil britânica. Em linhas gerais, podemos citar a redução ou até abolição
das tarifas alfandegárias de matérias primas importadas pelas manufaturas
locais, elevou-se o reembolso aduaneiro para as matérias-primas importadas pelas
manufaturas de exportação, abolição de grande parte dos impostos de exportação
da maioria dos manufaturados, aumentaram os subsídios à exportação a novos
itens como a seda (1722) e a pólvora (1731) e o aumento aos já existentes em
alguns produtos como ao pano de vela e do açúcar refinado (1731 e 1733 respectivamente)
e criaram-se normas para regulamentar a qualidade dos produtos [6].
Em 1770 impôs-se
barreira comercial a importação de produtos de algodão da índia, prejudicando o
que era naquela época a manufatura de algodão mais próspera do mundo, decorreu
à extinção do monopólio das índias orientais no setor de algodão e em seguida
sua destruição, em 1873, 40%-45% da exportação de têxtil de algodão da
Grã-Bretanha se destinava a esse país.[7]
Por fim, já no inicio
do século XIX havia uma pressão para que a Grã-Bretanha aderisse ao chamado “livre
comércio”, por pressão de fabricantes que, segundo historiadores, viram no “livre
comércio” uma tentativa de “conter a industrialização do continente mediante a
ampliação do mercado de produtos agrícolas e matérias primas” (Kindleberger,
1978, p.196). Em 1860 temos o acordo anglo-françês de livre comércio chamado de
Cobden-Chevalier, para se ter uma ideia, em 1848 a Grã-Bretanha tinha 1.146
produtos tributáveis, em 1860 não mais que 48.
Diante de todas essas
informações que o leitor acompanhou com severa paciência, podemos resumir que a
Grã-Bretanha só pode emergir como potência econômica mundial devido as
constantes intervenções do Estado em sua economia Sem isto não poderia entrar
em concorrência com os Países Baixos que já estavam bastante adiantados em
vários segmentos industriais, nem competir com cidades mercantis como as
italianas, nem com a liga Hanseática (aliança de cidades alemãs ou com influência
alemã, que detinham o monopólio comercial no norte da Europa e nos Bálticos), e
que só aderiu ao chamado “livre comércio” no momento em que já estava estabelecida
enquanto potência econômica.
Nota 1: A partir do século XX, mais precisamente em 1903 com a Tariff Reform League [Liga de reforma tarifária], a agenda de "livre comércio" da Grã-Bretanha se esfacela, devido a perda na concorrência com as manufaturas norte-americanas e alemãs.
Nota 2: Repare o leitor que não explorei o empreendimento de dominação politica e econômica denominado "neocolonialismo", o qual a Grã-bretanha foi seu principal agente e beneficiado economicamente, já que a partir deste, pode usufruir de matéria prima barata e novos mercados para escoar suas manufaturas.
[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/Consenso_de_Washington
[2] Davies, Norman (1999) As Ilhas Uma história, p.349. Nesse livro o historiador Davies faz uma abordagem sobre a história da Grã-bretanha, bem como a história da Irlanda.
[3] Defoe, D. (1728) Um plano do Comércio Inglês. p. 95-96.
[4] Defoe, D. (1728) Um plano do Comércio Inglês. p. 97-98
[5] Ibidem p.97-101
[6] http://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/120062/morais_gg_tcc_arafcl.pdf?sequence=1 p 21-22
[7] Eric Hobsbawn (1999) Indústria e Império p.125
Nota 1: A partir do século XX, mais precisamente em 1903 com a Tariff Reform League [Liga de reforma tarifária], a agenda de "livre comércio" da Grã-Bretanha se esfacela, devido a perda na concorrência com as manufaturas norte-americanas e alemãs.
Nota 2: Repare o leitor que não explorei o empreendimento de dominação politica e econômica denominado "neocolonialismo", o qual a Grã-bretanha foi seu principal agente e beneficiado economicamente, já que a partir deste, pode usufruir de matéria prima barata e novos mercados para escoar suas manufaturas.
[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/Consenso_de_Washington
[2] Davies, Norman (1999) As Ilhas Uma história, p.349. Nesse livro o historiador Davies faz uma abordagem sobre a história da Grã-bretanha, bem como a história da Irlanda.
[3] Defoe, D. (1728) Um plano do Comércio Inglês. p. 95-96.
[4] Defoe, D. (1728) Um plano do Comércio Inglês. p. 97-98
[5] Ibidem p.97-101
[6] http://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/120062/morais_gg_tcc_arafcl.pdf?sequence=1 p 21-22
[7] Eric Hobsbawn (1999) Indústria e Império p.125





