““Nós, os revolucionários,
estamos cheios de fogo por dentro.” (Hugo Chaves)
O fenômeno capitalista de globalização
consiste em um processo de integração e interdependência comercial, cultural e
politica entre os países, até a década de 1980 poderíamos dizer que sua
principal característica nesse processo seria o maior fluxo de mercadoria entre
as nações, no entanto, com as mudanças ocorridas a partir da década de 60, que
culminou em poucas perspectivas de crescimento econômico
– fim do acordo de Bretton Woods, fim do modelo de acumulação, aumento da taxa
de juros norte-americana e crise do petróleo – formou-se uma anomalia dentro do
próprio sistema capitalista, de modo que o estoque de ativos financeiros cada
vez mais vem se distanciando da economia real, resultando na inauguração de um
novo ente econômico, não mais comprometido com o capital produtivo, na geração
de emprego e no desenvolvimento das nações, mas tão somente no rentismo,
implicando em um maior fluxo não de mercadorias, mas de capitais.
A partir dessas mudanças, para garantir a lucratividade da
nova classe de “investidores”, ocorre a partir da Inglaterra, e mais adiante
pelos demais países, o processo de desregulamentação dos mercados financeiros,
dando inicio as várias modalidades de aplicações (opções, clubes de
investimentos, fundos de pensão, companhias de seguros etc.), viabilizando um
maior leque de opções para o capital especulativo. Outro fator decisivo para a
financeirização das economias, foi o próprio desenvolvimento das comunicações,
que possibilitou aplicações financeiras em tempo real em várias partes do
globo, além de contribuir para o aumento da qualidade e quantidade de
informações relevantes para as decisões financeiras e controle das filiais de
grandes multinacionais e instituições financeiras. Mesmo tido sua posição de
destaque desbancada pelo capital financeiro, o capital produtivo sobrevive com
alguma relevância a nível mundial, na forma de oligopólios e subserviente ao
sistema financeiro através de acionistas em busca de elevados retornos
lucrativos, alterando o modelo administrativo das empresas, que passam a operar
segundo um modelo de gestão corporativa, em que a medida de sucesso de uma
empresa é associada ao quanto ela enriquece seus acionistas (shareholder
value), e limitada
sempre a uma visão de curto prazo em que o lucro não-operacional passa a ser
almejado, minimizando recursos para a atividade produtiva.
A América Latina
No contexto da década de 60 e 70 os países latinos
americanos, atraídos pela abundante oferta de crédito mundial e baixa taxa de
juros, haviam contraído empréstimos com bancos internacionais, que, favorecidos
pelos excedentes financeiros dos países produtores de petróleo, puderam ampliar
sua penetração creditícia aos países de terceiro mundo do continente americano,
fortalecendo dessa forma grupos financeiros privados internacionais.
No Brasil, e em outros países da América Latina, esses
empréstimos representaram um suporte para a industrialização, que teve como
base a intervenção estatal e a substituição de importação, dando aval para
modelos desenvolvimentistas que preconizavam uma participação ativa do Estado
no desenvolvimento da indústria, infraestrutura e consumo interno, o qual
resultou no famoso “milagre econômico”, que a despeito do crescimento da
pobreza e da desigualdade, promoveu em média, um crescimento de 7% a.a até a
década de 80.
A partir do segundo choque do petróleo e com o aumento da
taxa de juros americana, que por sua vez elevou os déficits fiscais dos EUA,
reduzindo a liquidez dos mercados financeiros, tem-se nos países latinos
americanos um crescente endividamento externo, que resultou em médio prazo na
interrupção da concessão de crédito para esses países, e que levou ao aumento
da crise internacional, devido à impossibilidade desses países saldarem seus
compromissos. A desconfiança para com a América Latina que alguns anos antes
era vista com enorme otimismo por ter sido um terreno fértil para a geração de
lucros, começa a crescer nos mercados de capitais. Em virtude disso, amparados
no subterfugio de ajustar as contas desses países para dessa forma controlar a
inflação e retornar o crescimento econômico - mas que na verdade visavam tão somente
garantir a dominação politica e econômica do capital financeiro - entra em cena
o Banco Mundial e o FMI como protagonistas de uma agenda que irá impor duras
condições aos países endividados e comprometer a soberania desses países na
condução de suas politicas econômicas. Nasce o neoliberalismo.
As politicas neoliberais já vinham sendo adotadas desde as
décadas de 70 e 80 por alguns países, com destaque para os EUA, Reino Unido e o
Chile, mas apenas em 1989 estabeleceu-se uma reunião em Washington (EUA) para
tratar especificamente das reformas que deveriam ser implementadas nos países
da América Latina, encontro esse que foi denominado pelo economista John Willianson de “Consenso de Washington”. Constituído por três personagens:
agências multilaterais, como o FMI e o Banco Mundial, heranças do acordo de
Bretton Woods, funcionários do governo dos EUA e alguns representantes dos
governos em desenvolvimento – esse último inserido apenas de maneira demagógica
– estabeleceu-se uma relação triangular entre essas instâncias, as conclusões do Consenso de Washington firmaram um receituário o qual
deveria ser seguido por esses países, entre as medidas inseridas na imposição
estavam: abertura comercial, eliminação de restrições para investimentos
estrangeiros, privatização, desburocratização, juros de mercado, câmbio de
mercado, desregulamentação das leis trabalhistas, disciplina fiscal e direito a
propriedade intelectual - o neoliberalismo na América Latina apenas se
consolidou na década de 90 com o Consenso de Washington, embora ainda na década
de 70 encontrasse no Chile e no Uruguai um terreno fértil para germinar suas
ideias. Em casos como o do Brasil, que também sofreu com a onda neoliberal,
caracterizado por uma abertura da sua economia e privatizações de estatais, o
neoliberalismo encontrou na constituição de 1988 um freio para sua expansão -
dado que essa dispunha de dispositivos que garantia alguns direitos
fundamentais e que delegava uma participação razoável do Estado na economia –
ou melhor, um adiamento, até a chegada dos governos Collor e Fernando Henrique
Cardoso.
Há que se considerar também o apoio que essas medidas tiveram
de parcelas das elites politicas, empresariais e intelectuais das regiões que
viriam a ser implementadas, como exemplo desse processo de cooptação temos a
Fiesp (Federação das industrias do Estado de São Paulo) no Brasil, com seu
documento publicado em 1990 sob o titulo “Livre para crescer – Proposta para um
Brasil Moderno”, no qual sugere reformas idênticas a adotadas no Consenso de
Washington, e em particular, uma bastante curiosa não explicita no Consenso,
mas que estava bastante detalhada em um documento do Banco mundial denominado
“Trade Policy in Brazil: the Case for Reform”, o qual recomendava que a
inserção do Brasil no comércio mundial se desse pela revalorização da
agricultura de exportação. Isto é, o órgão máximo da indústria paulista e um
dos mais importantes no país em matéria de industrialização, endossa uma
inversão do processo de industrialização, limitando o Brasil a vocação de
agroexportador as vésperas do século XXI. Outro apoio que a proposta neoliberal
se escorou foi na própria imprensa local, que aprovava essas reformas e taxava
de retrógrados ou “dinossauros” aqueles que não aderissem a “modernização pelo
mercado”, mas que cinicamente, registrou com respeito as declarações do
presidente da General Motors Mundial que sugeriu cautela para com a abertura
comercial no Brasil, com receio de não poder competir com veículos de origem
Japonesa ou Coreana, dessa forma, segundo a imprensa brasileira, caberia apenas
a investidores europeus ou americanos, e não empresários nacionais, o
protagonismo de assumir a indústria interna e dar prosseguimento ao processo de
substituição de importações.
Efeitos do
neoliberalismo
Dentre as propostas do Consenso de Washington, tem-se a
adoção de três medidas fundamentais para os países latinos americanos poderem
renegociar suas dividas externas e continuar recebendo recursos das agências
financeiras internacionais: privatização de estatais, abertura comercial e
flexibilização dos fluxos de capital para o exterior. Em alguns países da
América Latina, o que essas politicas no máximo conseguiram alcançar foi um
controle da inflação, mas sempre a custo do aumento da pobreza e miséria, e em
outros casos em que houve crescimento econômico, elevou-se a desigualdade.
As politicas neoliberais aplicadas nos países latinos
americanos levaram a um aumento do desemprego, desigualdade, perda de direitos
fundamentais, violência e aumento da inflação. Se a década de 80 ficou
conhecida como a “década perdida”, de modo geral, os anos 90 não se destoaram
dos problemas enfrentados na década anterior, ainda a hiperinflação era um
problema e os desinvestimentos conjugaram-se devido a crescente fuga de capitais.
Passemos a analisar, dando destaque a algumas economias, de que forma esse
processo ocorreu:
Temos no Chile, a época do autocrata Augusto Pinochet
(1973-1990), famoso por ser laboratório do neoliberalismo na década de 70, e
que contou com a assessoria do economista da Escola de Chicago Milton Friedman,
e de seus discípulos (Chicago Boys), um aumento considerável do nível de
desemprego, atingindo 20% da população economicamente ativa em 1982, sempre
acima da média sul-americana (em torno de 5%) durante o regime. Uma explosão
inflacionária nunca dantes vista no país - em 1973 chegou ao pico de 700% - um
aumento da desigualdade de 0,62 (medido pelo índice de gini) em 1989, e um
aumento da pobreza acarretado pela diminuição do PIB per-capita. A privatização
de setores públicos como educação e previdência, foi uma das maiores perdas
para o povo chileno, sendo percebida pela onda de protestos ocorridos em 2011
por estudantes que pediam a estatização das universidades públicas privatizadas
durante o regime de Pinochet, e de grupos como o NO + AFP, que protestam contra
as empresas que controlam os fundos de pensão dos trabalhadores chilenos, as
AFP (administradoras de fundo de pensão), que impedem o contribuinte de
administrar seus fundos e concedem em média pensões miseráveis, equivalentes a
30% do salário mínimo local.
Na argentina, sob a liderança do peronista Carlos Menem
(1989-99), temos em seu primeiro mandato um controle da inflação e um razoável
crescimento econômico graças a dois fatores: a politica cambial denominada
currency board, em que o câmbio esteve atrelado ao dólar em um regime de
paridade, e a entrada de capitais, em virtude das privatizações de estatais e a
abertura da economia. Mesmo tomada essas medidas, Isso não impediu que uma
crise se instaurasse no país ao final de seu mandato, temos um aumento da
divida externa argentina, somado a um déficit na conta corrente da balança de
pagamentos e um déficit na balança comercial. Os déficits nas contas internas e
externas afastaram os investimentos, diminuindo os investimentos diretos e
empréstimos. Com a economia susceptível a oscilações, uma onda de
desindustrialização no país, e a estrutura social em crise, com a elevação da
pobreza (sobretudo com o empobrecimento da classe média) e concentração de riqueza,
assume Fernando de la Rúa do Partido Radical (1999-2001). De la Rúa manteve a
mesma estrutura macroeconômica de seu antecessor, com o agravante de ter que
aumentar impostos e promover cortes em investimentos, o que viabilizou um
aumento da crise econômica e politica, acarretando na sua renuncia em 20 de
dezembro de 2001. Como mandato tampão, assume Eduardo Duhalde do Partido
Justicialista, que por fim, concretiza o medo que assolava os mercados
financeiros de um possível calote argentino com o pedido de moratória em 2001.
No caso do Uruguai, as
medidas neoliberais já vinham sendo implementadas desde a época do regime
militar (1973-1985), sendo marcado pela liberação de capital, abertura para
investimento estrangeiro, exportações promovidas pela lei de promoção da
indústria e queda dos salários reais diminuindo o consumo interno. O primeiro
governo democrático pós-ditadura de Sanguinetti (1985-1990), tentou solucionar
o problema do endividamento do estado por meio da criação de zonas francas e
aderindo ao Mercosul. As estatais
passam a se tornar mistas e os direitos trabalhistas flexibilizados, de forma
que essas empresas passam a negociar acordos salariais com os trabalhadores com
o objetivo de diminuir seus custos. Temos um aprofundamento do neoliberalismo
com o governo de Lacalle (1990-1995), sendo comparado com figuras como Reagan e
Margaret Tchather. Houve corte de investimentos, aumento da pobreza,
desigualdade e avanço nas privatizações, mesmo sem o aval popular, marcado por
um plebiscito ocorrido em 1992 em que 65% dos eleitores rejeitaram as
privatizações.
Na Bolívia, o neoliberalismo se inicia em 1985 com a
implementação de uma politica econômica cujo nome herdará da antiga União
Soviética NPE (Nova Politica Econômica) sob o governo de Victor Paz Estenssoro
(1985-1999). (primeiro governo democrático pós-ditadura) o qual preconiza a
abertura econômica e tentativa de consolidação da democracia liberal. O
crescimento econômico de 3,9% nos anos 90 e a estabilidade dos preços marcada
por uma inflação de 3% em 1999, não impediu que a pobreza atingisse mais da
metade da população (63%), principalmente indígenas. A reforma agrária, apesar
da revolução de 1952, se tornou novamente questão de disputa e abriu espaço
para uma onda de conflitos e mortes. Dentre as inúmeras privatizações
ocorridas, a mais importante e emblemática foi o repasse para a iniciativa
privada do serviço de saneamento e abastecimento básico (SEMAPA) na cidade de
Cochabamba. Sem se importa com o valor social do recurso e guiado apenas pelo
lucro, ocorre uma aumento das tarifas de água em consequência de um contrato
com uma empresa estrangeira, que contou com o aval do Banco Mundial e FMI, o
que consumiu mais de 25% da renda das famílias pobres e aprofundou a crise,
levando o cidadão boliviano as ruas. A onda de protestos culminou no bloqueio
de estradas, ruas e aeroportos, diante da convulsão social que pedia melhorias
nas condições de vida, o presidente Hugo Banzer Suárez decretou estado de sitio
intensificando a repressão. Mesmo após o fim do estado de sitio, as tensões
voltaram com a implantação de três bases militares em Chapare, com o suporte
dos EUA na luta antidrogas que tinha o objetivo de erradicar o cultivo da folha
de coca e dominar a região.
É a partir desse contexto que surge a figura de Evo Morales
como única alternativa ao povo boliviano, o qual se distinguiu dos principais
candidatos nas eleições de 2005 com uma agenda desenvolvimentista, de
nacionalização dos hidrocarbonetos entregues até então as transnacionais, e de
uma série de conquistas sociais que tiveram um papel importante no recuo da
pobreza.
A Venezuela já vinha afundada em crise politica, econômica e
social desde 1989 sob o comando de Carlos
Andrés Pérez, que mesmo sendo eleito pela segunda vez, enfrentou uma onda de protestos nas ruas
alguns dias após assumir o cargo, devido a falta de apoio ao pacote de
austeridade engendrado pelo FMI que buscava executar no país. Em virtude das
mortes e da comoção social em torno da crise econômica que o país passava, eis
que em 3 de fevereiro de 1992 o tenente-coronel Hugo Chaves com o auxilio de
300 efetivos tentava perpetrar um golpe de estado na Venezuela. Mesmo não
obtendo êxito, essa tentativa de golpe alavancou a sua popularidade entre as
massas, que resultou em sua eleição em 1998.
Embora Chavez estivesse no poder
o país passava uma situação difícil em termos econômicos, e as circunstâncias
da crise não apresentavam opções favoráveis, houve redução das reservas
internacionais e fuga de capitais em decorrência das enchentes e desabamentos
ocorridos no final dos anos 2000, o que agravou fatalmente a situação da
Venezuela - se podemos citar algo de positivo, seria o saldo positivo na
balança comercial, resultado das exportações de petróleo para os EUA. Com a
redução das reservas internacionais e a queda do preço do petróleo, Chavez
recorreu a redução dos gastos do governo, promovendo um ajuste nas contas tão
grande que derrubou abruptamente o valor da moeda (19% em relação ao dólar), o
que culminou em protestos nas ruas de Caracas.
As elites venezuelanas estavam
descontentes com o governo chavista, muitas de suas propostas - reforma
agrária, ampliação da participação popular na politica através de assembleias e
estatização de setores estratégicos – eram vistas como uma tentativa do governo
instalar um regime castrista no país, resultando no dia 11 de abril de 2002 em
um golpe contra Hugo Chavez, entretanto, que não durou por muito tempo, sendo
restituído ao poder no dia 13 do mesmo mês. Além desse golpe o governo sofreu
boicotes de vários profissionais, entre eles a paralização de setores de classe
média como associação de médicos, engenheiros e professores, e a paralização do
setor petroleiro, organizado pela Federação das Indústrias da Venezuela
(FEDECÂMARAS), que interrompeu a produção de petróleo prejudicando de forma
agressiva a população pobre, mas que aos poucos teve sua situação normalizada
dado os profissionais que resolveram não aderir a greve e a manifestação de
repúdio da população. A burguesia ainda recorreu a um reverendo para consultar
a opinião popular quanto a permanência de Hugo Chavez na presidência, sendo
derrotada por 54% dos votos que apoiaram a permanência de Chaves no comando do
país.
A situação econômica da
Venezuela começou a melhorar a partir de 2003, e as condições de vida do povo
venezuelano avançaram graças as chamadas “missões”, que eram politicas sociais
financiadas com recursos oriundo do petróleo que tinham o objetivo atingir a
massa da população com programas voltados a saúde, educação, assistência
social, habitação, desenvolvimento tecnológico entre outras áreas.
No Brasil, o ideário neoliberal se consolidou com certo
atraso, sendo o ultimo país da América Latina a instaurar as reformas exigidas
pelo consenso de Washington. Tal fato deveu-se a dois fatores: a dificuldade de
convergência das diversas frações do capital em torno do papel do Estado na
economia, onde ainda permanecia a mentalidade que preconizava o protagonismo do
Estado no Modelo de Substituição de Importações (MSI) e ao crescimento de
movimentos de massa, como o Partido dos Trabalhadores (PT), Central Única dos
Trabalhadores (CUT) e a movimentos que lutavam por reforma agrária como o
Movimento dos Trabalhadores rurais Sem Terra (MST), no qual tiveram substancial
importância na militância politica e social brasileira, mas que fracassaram em
tornar seu projeto hegemônico e popular, abrindo a possibilidade de
harmonização dos diversos setores da classe dominante tendo como o eixo o
projeto neoliberal.
Apesar de já no final do governo Sarney (1985-1990) haver uma
tentativa de inauguração do projeto neoliberal, enquanto reação à aprovação da
Constituição Federal de 1988, é no governo Fernando Collor de Mello (1990 – 1992)
que se inicia a abertura da economia para o capital estrangeiro e o processo de
privatizações. O choque mais visível do processo de abertura
comercial-financeira e de recessão – devido ao processo de estabilização dos
preços – foi o aumento do desemprego, ocasionado pelo acirramento do processo
de concorrência capitalista que fizeram as empresas a adotar um novo modelo do
processo produtivo, em especial a indústria automobilística que incluiu robôs
em seu processo de produção diminuindo os postos de trabalho, o que ocasionou
na diminuição do nível de popularidade do governo tanto por parte da população
quanto por parte de políticos, o que acarretou em uma abertura de um processo
de impeachment.
Para alguns, ascensão do governo Itamar Franco (1992-1994), vice
do presidente Fernando Collor de Mello, foi encarada como uma interrupção do
neoliberalismo, tendo esse manifestado publicamente seu descontentamento com as
privatizações ocorridas no governo anterior e repudiar a não aplicação dos
recursos oriundos da venda de estatais na área social. Mas já empossado na
presidência e contando com o auxilio de seu ministro da fazenda Fernando
Henrique Cardoso, que posteriormente viria a se tornar presidente da república,
iniciou o famoso “plano real”, no qual defendia um enfrentamento da inflação
por meio do controle do câmbio, maior abertura da economia e aumento dos
investimentos de capital estrangeiro, essas medidas foram fundamentais para
inserir o Brasil no processo de globalização, e que ao tomar posse o governo Fernando
Henrique Cardoso (1994 a 1997 - 1998 a 2002), foram aprofundadas.
O plano real obteve êxito no controle dos preços, a paridade
real dólar diminui as tarifas de importação, e inundou o mercado de produtos
baratos, diminuindo a inflação de 4992,6% (IPCA) em jun/94 para 33,3% (IPCA) em
junho do ano seguinte. As empresas impossibilitadas de competir com as
estrangeiras que estavam adentrando o país, e com seus custos já inflados, não
conseguiram conceder um aumento real nos salários de seus funcionários, e com
isso houve uma perda salarial impactando na demanda agregada e em desemprego.
Em razão da crise cambial em 1999 por conta do ataque especulativo que o Brasil
sofreu e da necessidade de elevados superávits primários para o pagamento da
divida pública, a carga tributária cresceu no segundo governo do Fernando
Henrique Cardoso (FHC), passando de 25% para 37%.
Na segunda metade dos anos 90 o processo de privatização foi
aprofundado, diversas estatais foram entregues a iniciativa privada, entre
elas, a mais marcante foi a venda da estatal Vale do Rio do Doce, que até hoje
gera revolta por parte dos críticos da privatização, alegando que seu valor de
venda (R$ 3,3 bilhões) foi bem abaixo do valor real da estatal, alguns estimam
o valor de R$100 bilhões. Houve também uma tentativa de aprovar um projeto de
terceirização no interior do governo, bem como reforma da previdência e reforma
trabalhista, no entanto, com a chegada do governo Lula (2002 a 2006 –2007 a
2011) em 2003 o curso desse processo de aprofundamento do neoliberalismo no
Brasil foi paralisado, além disso, houve a implantação de programas sociais que
visaram combater a pobreza e a miséria, como Bolsa Família e Brasil Sem
Miséria, no qual 36 milhões de brasileiro saíram da situação de extrema pobreza,
aumento real dos salários, criação de postos de trabalho, universidades e
inclusão pelo consumo com a expansão de créditos.
Há quem considere alguns elementos neoliberais no governo
Lula, e apenas sintomas de um documento divulgado após eleito chamado Carta ao
Povo Brasileiro, divulgado após sua eleição, no qual assumia compromissos com o
mercado financeiro. Entre as características estão: dependência ao capital
externo, aumento da divida pública, permanência do tripé macroeconômico com
raízes no governo FHC, caracterizado por um conjunto de três elementos: metas
de inflação, superávit primário e câmbio flutuante, e do próprio programa de
transferência de renda Bolsa Família cuja inspiração encontra-se no economista
Milton Friedman.
O neoliberalismo retorna ao Brasil a partir do segundo
governo de Dilma Rousseff (2011 a 2013 e 2014 a 2016) e após o processo de
impeachment tem continuidade com seu vice Michel Temer (atual), houve corte de
investimentos, ajuste fiscal, paralisação de obras de infraestrutura (PAC) e
encaminhamento de projetos que visavam à reforma da previdência e reforma
trabalhista.
Considerações finais
O capitalismo se consolida enquanto realidade mundial através
da relação periferia-centro, que por meio de um processo de subordinação politica,
econômica e cultural engendrado pelos países desenvolvidos - os quais dispõem
de um aparato militar, econômico e midiático de dimensões continentais - sobre
os países subdesenvolvidos, funda uma nova realidade mundial globalizada,
ocorre então, aquilo que podemos chamar de mundialização do espaço geográfico,
o desenvolvimento técnico-cientifico-informacional altera a compreensão do
espaço-tempo que antes eram encaradas como empecilhos e viabiliza uma maior
difusão de conhecimento e transações comerciais. Em termos propagandísticos, a
globalização se justifica na promessa de tirar do atraso os países que se
encontram na periferia do sistema, em troca disso, exige a abertura
comercial-financeira, alegando que os investimentos estrangeiros contribuirão
para a melhora das condições de vida de seus cidadãos. Os países do centro, não
acidentalmente, difundem seus valores culturais por meio de suas agências e
empresas cinematográficas, dominando mercados consumidores e propagando seus
valores culturais calcados no consumo em massa.
As transnacionais passam a operar em escala mundial como
principal agente da globalização, através da transposição de fronteiras, e
ausentes de qualquer vinculo com países, povos e culturas, de forma que modelam
a estrutura político-econômica de nações que abrem suas economias obedecendo
aos critérios de grandes corporações. O Estado-nação, que antes possuía alguma
soberania, limita seu campo de atuação para criar novos tipos de
regulamentações, reformas e atos legislativos com base nas exigências das
transnacionais.
A arquitetura financeira mundial é pauta na moeda americana,
o dólar, que por meio do Federal Reserve System (FED) é emitido de forma
massiva sem nenhum lastro, garante o salvamento de empresas e bancos em caso de
crise. A criação primária da moeda americana a partir da emissão de títulos
públicos do governo norte-americano se reduz a um passe de mágica contábil,
onde o intercâmbio entre uma nota promissória do governo e um cheque do Federal
Reserve se transforma em um depósito do governo. A mera acumulação de reservas
de dólares pelos países subdesenvolvidos constitui um mecanismo de
transferência de renda para os países ricos sem nenhuma contrapartida.
O neoliberalismo dissemina a ideologia da ineficiência e
corrupção estatal, ao passo que enaltece a eficiência dos mercados, exalta a
competitividade e cria uma espécie de darwinismo econômico onde os mais aptos
são premiados em contrapartida da exclusão e marginalização dos inaptos. A
despeito de ter usado da politica através de ambientes autoritários para se
perdurar no poder, paradoxalmente o neoliberalismo proclama o fim da politica,
diminuindo seu raio de ação e se estabelecendo enquanto única alternativa
possível. Quando da participação popular na politica, o neoliberalismo
incorpora como regimento politico a democracia representativa como mediadora
burocrática entre cidadão e Estado, em que pese às eleições, não passam de
meros circos formados por atores coadjuvantes de grandes grupos econômicos e
afiliados de grandes corporações midiáticas.
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