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sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Financeirização e Neoliberalismo na Latinoamérica

Segue a minha contribuição ao livro da organização politica Avante, o qual sou militante.  Em breve o livro será publicado pela Editora Carvalho, pretendo divulgá-lo nesse blog e informar os locais de vendas do mesmo. 


“Nós, os revolucionários, estamos cheios de fogo por dentro.” (Hugo Chaves)

  
   O fenômeno capitalista de globalização consiste em um processo de integração e interdependência comercial, cultural e politica entre os países, até a década de 1980 poderíamos dizer que sua principal característica nesse processo seria o maior fluxo de mercadoria entre as nações, no entanto, com as mudanças ocorridas a partir da década de 60, que culminou em poucas perspectivas de crescimento econômico – fim do acordo de Bretton Woods, fim do modelo de acumulação, aumento da taxa de juros norte-americana e crise do petróleo – formou-se uma anomalia dentro do próprio sistema capitalista, de modo que o estoque de ativos financeiros cada vez mais vem se distanciando da economia real, resultando na inauguração de um novo ente econômico, não mais comprometido com o capital produtivo, na geração de emprego e no desenvolvimento das nações, mas tão somente no rentismo, implicando em um maior fluxo não de mercadorias, mas de capitais.

A partir dessas mudanças, para garantir a lucratividade da nova classe de “investidores”, ocorre a partir da Inglaterra, e mais adiante pelos demais países, o processo de desregulamentação dos mercados financeiros, dando inicio as várias modalidades de aplicações (opções, clubes de investimentos, fundos de pensão, companhias de seguros etc.), viabilizando um maior leque de opções para o capital especulativo. Outro fator decisivo para a financeirização das economias, foi o próprio desenvolvimento das comunicações, que possibilitou aplicações financeiras em tempo real em várias partes do globo, além de contribuir para o aumento da qualidade e quantidade de informações relevantes para as decisões financeiras e controle das filiais de grandes multinacionais e instituições financeiras. Mesmo tido sua posição de destaque desbancada pelo capital financeiro, o capital produtivo sobrevive com alguma relevância a nível mundial, na forma de oligopólios e subserviente ao sistema financeiro através de acionistas em busca de elevados retornos lucrativos, alterando o modelo administrativo das empresas, que passam a operar segundo um modelo de gestão corporativa, em que a medida de sucesso de uma empresa é associada ao quanto ela enriquece seus acionistas (shareholder value), e limitada sempre a uma visão de curto prazo em que o lucro não-operacional passa a ser almejado, minimizando recursos para a atividade produtiva.

A América Latina

No contexto da década de 60 e 70 os países latinos americanos, atraídos pela abundante oferta de crédito mundial e baixa taxa de juros, haviam contraído empréstimos com bancos internacionais, que, favorecidos pelos excedentes financeiros dos países produtores de petróleo, puderam ampliar sua penetração creditícia aos países de terceiro mundo do continente americano, fortalecendo dessa forma grupos financeiros privados internacionais.

No Brasil, e em outros países da América Latina, esses empréstimos representaram um suporte para a industrialização, que teve como base a intervenção estatal e a substituição de importação, dando aval para modelos desenvolvimentistas que preconizavam uma participação ativa do Estado no desenvolvimento da indústria, infraestrutura e consumo interno, o qual resultou no famoso “milagre econômico”, que a despeito do crescimento da pobreza e da desigualdade, promoveu em média, um crescimento de 7% a.a até a década de 80.

A partir do segundo choque do petróleo e com o aumento da taxa de juros americana, que por sua vez elevou os déficits fiscais dos EUA, reduzindo a liquidez dos mercados financeiros, tem-se nos países latinos americanos um crescente endividamento externo, que resultou em médio prazo na interrupção da concessão de crédito para esses países, e que levou ao aumento da crise internacional, devido à impossibilidade desses países saldarem seus compromissos. A desconfiança para com a América Latina que alguns anos antes era vista com enorme otimismo por ter sido um terreno fértil para a geração de lucros, começa a crescer nos mercados de capitais. Em virtude disso, amparados no subterfugio de ajustar as contas desses países para dessa forma controlar a inflação e retornar o crescimento econômico - mas que na verdade visavam tão somente garantir a dominação politica e econômica do capital financeiro - entra em cena o Banco Mundial e o FMI como protagonistas de uma agenda que irá impor duras condições aos países endividados e comprometer a soberania desses países na condução de suas politicas econômicas. Nasce o neoliberalismo.


As politicas neoliberais já vinham sendo adotadas desde as décadas de 70 e 80 por alguns países, com destaque para os EUA, Reino Unido e o Chile, mas apenas em 1989 estabeleceu-se uma reunião em Washington (EUA) para tratar especificamente das reformas que deveriam ser implementadas nos países da América Latina, encontro esse que foi denominado pelo economista John Willianson de “Consenso de Washington”.  Constituído por três personagens: agências multilaterais, como o FMI e o Banco Mundial, heranças do acordo de Bretton Woods, funcionários do governo dos EUA e alguns representantes dos governos em desenvolvimento – esse último inserido apenas de maneira demagógica – estabeleceu-se uma relação triangular entre essas instâncias, as conclusões do Consenso de Washington firmaram um receituário o qual deveria ser seguido por esses países, entre as medidas inseridas na imposição estavam: abertura comercial, eliminação de restrições para investimentos estrangeiros, privatização, desburocratização, juros de mercado, câmbio de mercado, desregulamentação das leis trabalhistas, disciplina fiscal e direito a propriedade intelectual - o neoliberalismo na América Latina apenas se consolidou na década de 90 com o Consenso de Washington, embora ainda na década de 70 encontrasse no Chile e no Uruguai um terreno fértil para germinar suas ideias. Em casos como o do Brasil, que também sofreu com a onda neoliberal, caracterizado por uma abertura da sua economia e privatizações de estatais, o neoliberalismo encontrou na constituição de 1988 um freio para sua expansão - dado que essa dispunha de dispositivos que garantia alguns direitos fundamentais e que delegava uma participação razoável do Estado na economia – ou melhor, um adiamento, até a chegada dos governos Collor e Fernando Henrique Cardoso.


Há que se considerar também o apoio que essas medidas tiveram de parcelas das elites politicas, empresariais e intelectuais das regiões que viriam a ser implementadas, como exemplo desse processo de cooptação temos a Fiesp (Federação das industrias do Estado de São Paulo) no Brasil, com seu documento publicado em 1990 sob o titulo “Livre para crescer – Proposta para um Brasil Moderno”, no qual sugere reformas idênticas a adotadas no Consenso de Washington, e em particular, uma bastante curiosa não explicita no Consenso, mas que estava bastante detalhada em um documento do Banco mundial denominado “Trade Policy in Brazil: the Case for Reform”, o qual recomendava que a inserção do Brasil no comércio mundial se desse pela revalorização da agricultura de exportação. Isto é, o órgão máximo da indústria paulista e um dos mais importantes no país em matéria de industrialização, endossa uma inversão do processo de industrialização, limitando o Brasil a vocação de agroexportador as vésperas do século XXI. Outro apoio que a proposta neoliberal se escorou foi na própria imprensa local, que aprovava essas reformas e taxava de retrógrados ou “dinossauros” aqueles que não aderissem a “modernização pelo mercado”, mas que cinicamente, registrou com respeito as declarações do presidente da General Motors Mundial que sugeriu cautela para com a abertura comercial no Brasil, com receio de não poder competir com veículos de origem Japonesa ou Coreana, dessa forma, segundo a imprensa brasileira, caberia apenas a investidores europeus ou americanos, e não empresários nacionais, o protagonismo de assumir a indústria interna e dar prosseguimento ao processo de substituição de importações.


Efeitos do neoliberalismo

Dentre as propostas do Consenso de Washington, tem-se a adoção de três medidas fundamentais para os países latinos americanos poderem renegociar suas dividas externas e continuar recebendo recursos das agências financeiras internacionais: privatização de estatais, abertura comercial e flexibilização dos fluxos de capital para o exterior. Em alguns países da América Latina, o que essas politicas no máximo conseguiram alcançar foi um controle da inflação, mas sempre a custo do aumento da pobreza e miséria, e em outros casos em que houve crescimento econômico, elevou-se a desigualdade.
As politicas neoliberais aplicadas nos países latinos americanos levaram a um aumento do desemprego, desigualdade, perda de direitos fundamentais, violência e aumento da inflação. Se a década de 80 ficou conhecida como a “década perdida”, de modo geral, os anos 90 não se destoaram dos problemas enfrentados na década anterior, ainda a hiperinflação era um problema e os desinvestimentos conjugaram-se devido a crescente fuga de capitais. Passemos a analisar, dando destaque a algumas economias, de que forma esse processo ocorreu:


Temos no Chile, a época do autocrata Augusto Pinochet (1973-1990), famoso por ser laboratório do neoliberalismo na década de 70, e que contou com a assessoria do economista da Escola de Chicago Milton Friedman, e de seus discípulos (Chicago Boys), um aumento considerável do nível de desemprego, atingindo 20% da população economicamente ativa em 1982, sempre acima da média sul-americana (em torno de 5%) durante o regime. Uma explosão inflacionária nunca dantes vista no país - em 1973 chegou ao pico de 700% - um aumento da desigualdade de 0,62 (medido pelo índice de gini) em 1989, e um aumento da pobreza acarretado pela diminuição do PIB per-capita. A privatização de setores públicos como educação e previdência, foi uma das maiores perdas para o povo chileno, sendo percebida pela onda de protestos ocorridos em 2011 por estudantes que pediam a estatização das universidades públicas privatizadas durante o regime de Pinochet, e de grupos como o NO + AFP, que protestam contra as empresas que controlam os fundos de pensão dos trabalhadores chilenos, as AFP (administradoras de fundo de pensão), que impedem o contribuinte de administrar seus fundos e concedem em média pensões miseráveis, equivalentes a 30% do salário mínimo local.


Na argentina, sob a liderança do peronista Carlos Menem (1989-99), temos em seu primeiro mandato um controle da inflação e um razoável crescimento econômico graças a dois fatores: a politica cambial denominada currency board, em que o câmbio esteve atrelado ao dólar em um regime de paridade, e a entrada de capitais, em virtude das privatizações de estatais e a abertura da economia. Mesmo tomada essas medidas, Isso não impediu que uma crise se instaurasse no país ao final de seu mandato, temos um aumento da divida externa argentina, somado a um déficit na conta corrente da balança de pagamentos e um déficit na balança comercial. Os déficits nas contas internas e externas afastaram os investimentos, diminuindo os investimentos diretos e empréstimos. Com a economia susceptível a oscilações, uma onda de desindustrialização no país, e a estrutura social em crise, com a elevação da pobreza (sobretudo com o empobrecimento da classe média) e concentração de riqueza, assume Fernando de la Rúa do Partido Radical (1999-2001). De la Rúa manteve a mesma estrutura macroeconômica de seu antecessor, com o agravante de ter que aumentar impostos e promover cortes em investimentos, o que viabilizou um aumento da crise econômica e politica, acarretando na sua renuncia em 20 de dezembro de 2001. Como mandato tampão, assume Eduardo Duhalde do Partido Justicialista, que por fim, concretiza o medo que assolava os mercados financeiros de um possível calote argentino com o pedido de moratória em 2001.


No caso do Uruguai, as medidas neoliberais já vinham sendo implementadas desde a época do regime militar (1973-1985), sendo marcado pela liberação de capital, abertura para investimento estrangeiro, exportações promovidas pela lei de promoção da indústria e queda dos salários reais diminuindo o consumo interno. O primeiro governo democrático pós-ditadura de Sanguinetti (1985-1990), tentou solucionar o problema do endividamento do estado por meio da criação de zonas francas e aderindo ao Mercosul. As estatais passam a se tornar mistas e os direitos trabalhistas flexibilizados, de forma que essas empresas passam a negociar acordos salariais com os trabalhadores com o objetivo de diminuir seus custos. Temos um aprofundamento do neoliberalismo com o governo de Lacalle (1990-1995), sendo comparado com figuras como Reagan e Margaret Tchather. Houve corte de investimentos, aumento da pobreza, desigualdade e avanço nas privatizações, mesmo sem o aval popular, marcado por um plebiscito ocorrido em 1992 em que 65% dos eleitores rejeitaram as privatizações.


Na Bolívia, o neoliberalismo se inicia em 1985 com a implementação de uma politica econômica cujo nome herdará da antiga União Soviética NPE (Nova Politica Econômica) sob o governo de Victor Paz Estenssoro (1985-1999). (primeiro governo democrático pós-ditadura) o qual preconiza a abertura econômica e tentativa de consolidação da democracia liberal. O crescimento econômico de 3,9% nos anos 90 e a estabilidade dos preços marcada por uma inflação de 3% em 1999, não impediu que a pobreza atingisse mais da metade da população (63%), principalmente indígenas. A reforma agrária, apesar da revolução de 1952, se tornou novamente questão de disputa e abriu espaço para uma onda de conflitos e mortes. Dentre as inúmeras privatizações ocorridas, a mais importante e emblemática foi o repasse para a iniciativa privada do serviço de saneamento e abastecimento básico (SEMAPA) na cidade de Cochabamba. Sem se importa com o valor social do recurso e guiado apenas pelo lucro, ocorre uma aumento das tarifas de água em consequência de um contrato com uma empresa estrangeira, que contou com o aval do Banco Mundial e FMI, o que consumiu mais de 25% da renda das famílias pobres e aprofundou a crise, levando o cidadão boliviano as ruas. A onda de protestos culminou no bloqueio de estradas, ruas e aeroportos, diante da convulsão social que pedia melhorias nas condições de vida, o presidente Hugo Banzer Suárez decretou estado de sitio intensificando a repressão. Mesmo após o fim do estado de sitio, as tensões voltaram com a implantação de três bases militares em Chapare, com o suporte dos EUA na luta antidrogas que tinha o objetivo de erradicar o cultivo da folha de coca e dominar a região.

É a partir desse contexto que surge a figura de Evo Morales como única alternativa ao povo boliviano, o qual se distinguiu dos principais candidatos nas eleições de 2005 com uma agenda desenvolvimentista, de nacionalização dos hidrocarbonetos entregues até então as transnacionais, e de uma série de conquistas sociais que tiveram um papel importante no recuo da pobreza.


A Venezuela já vinha afundada em crise politica, econômica e social desde 1989 sob o comando de Carlos Andrés Pérez, que mesmo sendo eleito pela segunda vez, enfrentou uma onda de protestos nas ruas alguns dias após assumir o cargo, devido a falta de apoio ao pacote de austeridade engendrado pelo FMI que buscava executar no país. Em virtude das mortes e da comoção social em torno da crise econômica que o país passava, eis que em 3 de fevereiro de 1992 o tenente-coronel Hugo Chaves com o auxilio de 300 efetivos tentava perpetrar um golpe de estado na Venezuela. Mesmo não obtendo êxito, essa tentativa de golpe alavancou a sua popularidade entre as massas, que resultou em sua eleição em 1998.
Embora Chavez estivesse no poder o país passava uma situação difícil em termos econômicos, e as circunstâncias da crise não apresentavam opções favoráveis, houve redução das reservas internacionais e fuga de capitais em decorrência das enchentes e desabamentos ocorridos no final dos anos 2000, o que agravou fatalmente a situação da Venezuela - se podemos citar algo de positivo, seria o saldo positivo na balança comercial, resultado das exportações de petróleo para os EUA. Com a redução das reservas internacionais e a queda do preço do petróleo, Chavez recorreu a redução dos gastos do governo, promovendo um ajuste nas contas tão grande que derrubou abruptamente o valor da moeda (19% em relação ao dólar), o que culminou em protestos nas ruas de Caracas.

As elites venezuelanas estavam descontentes com o governo chavista, muitas de suas propostas - reforma agrária, ampliação da participação popular na politica através de assembleias e estatização de setores estratégicos – eram vistas como uma tentativa do governo instalar um regime castrista no país, resultando no dia 11 de abril de 2002 em um golpe contra Hugo Chavez, entretanto, que não durou por muito tempo, sendo restituído ao poder no dia 13 do mesmo mês. Além desse golpe o governo sofreu boicotes de vários profissionais, entre eles a paralização de setores de classe média como associação de médicos, engenheiros e professores, e a paralização do setor petroleiro, organizado pela Federação das Indústrias da Venezuela (FEDECÂMARAS), que interrompeu a produção de petróleo prejudicando de forma agressiva a população pobre, mas que aos poucos teve sua situação normalizada dado os profissionais que resolveram não aderir a greve e a manifestação de repúdio da população. A burguesia ainda recorreu a um reverendo para consultar a opinião popular quanto a permanência de Hugo Chavez na presidência, sendo derrotada por 54% dos votos que apoiaram a permanência de Chaves no comando do país.

A situação econômica da Venezuela começou a melhorar a partir de 2003, e as condições de vida do povo venezuelano avançaram graças as chamadas “missões”, que eram politicas sociais financiadas com recursos oriundo do petróleo que tinham o objetivo atingir a massa da população com programas voltados a saúde, educação, assistência social, habitação, desenvolvimento tecnológico entre outras áreas.


No Brasil, o ideário neoliberal se consolidou com certo atraso, sendo o ultimo país da América Latina a instaurar as reformas exigidas pelo consenso de Washington. Tal fato deveu-se a dois fatores: a dificuldade de convergência das diversas frações do capital em torno do papel do Estado na economia, onde ainda permanecia a mentalidade que preconizava o protagonismo do Estado no Modelo de Substituição de Importações (MSI) e ao crescimento de movimentos de massa, como o Partido dos Trabalhadores (PT), Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a movimentos que lutavam por reforma agrária como o Movimento dos Trabalhadores rurais Sem Terra (MST), no qual tiveram substancial importância na militância politica e social brasileira, mas que fracassaram em tornar seu projeto hegemônico e popular, abrindo a possibilidade de harmonização dos diversos setores da classe dominante tendo como o eixo o projeto neoliberal.

Apesar de já no final do governo Sarney (1985-1990) haver uma tentativa de inauguração do projeto neoliberal, enquanto reação à aprovação da Constituição Federal de 1988, é no governo Fernando Collor de Mello (1990 – 1992) que se inicia a abertura da economia para o capital estrangeiro e o processo de privatizações. O choque mais visível do processo de abertura comercial-financeira e de recessão – devido ao processo de estabilização dos preços – foi o aumento do desemprego, ocasionado pelo acirramento do processo de concorrência capitalista que fizeram as empresas a adotar um novo modelo do processo produtivo, em especial a indústria automobilística que incluiu robôs em seu processo de produção diminuindo os postos de trabalho, o que ocasionou na diminuição do nível de popularidade do governo tanto por parte da população quanto por parte de políticos, o que acarretou em uma abertura de um processo de impeachment.

Para alguns, ascensão do governo Itamar Franco (1992-1994), vice do presidente Fernando Collor de Mello, foi encarada como uma interrupção do neoliberalismo, tendo esse manifestado publicamente seu descontentamento com as privatizações ocorridas no governo anterior e repudiar a não aplicação dos recursos oriundos da venda de estatais na área social. Mas já empossado na presidência e contando com o auxilio de seu ministro da fazenda Fernando Henrique Cardoso, que posteriormente viria a se tornar presidente da república, iniciou o famoso “plano real”, no qual defendia um enfrentamento da inflação por meio do controle do câmbio, maior abertura da economia e aumento dos investimentos de capital estrangeiro, essas medidas foram fundamentais para inserir o Brasil no processo de globalização, e que ao tomar posse o governo Fernando Henrique Cardoso (1994 a 1997 - 1998 a 2002), foram aprofundadas.
O plano real obteve êxito no controle dos preços, a paridade real dólar diminui as tarifas de importação, e inundou o mercado de produtos baratos, diminuindo a inflação de 4992,6% (IPCA) em jun/94 para 33,3% (IPCA) em junho do ano seguinte. As empresas impossibilitadas de competir com as estrangeiras que estavam adentrando o país, e com seus custos já inflados, não conseguiram conceder um aumento real nos salários de seus funcionários, e com isso houve uma perda salarial impactando na demanda agregada e em desemprego. Em razão da crise cambial em 1999 por conta do ataque especulativo que o Brasil sofreu e da necessidade de elevados superávits primários para o pagamento da divida pública, a carga tributária cresceu no segundo governo do Fernando Henrique Cardoso (FHC), passando de 25% para 37%.

Na segunda metade dos anos 90 o processo de privatização foi aprofundado, diversas estatais foram entregues a iniciativa privada, entre elas, a mais marcante foi a venda da estatal Vale do Rio do Doce, que até hoje gera revolta por parte dos críticos da privatização, alegando que seu valor de venda (R$ 3,3 bilhões) foi bem abaixo do valor real da estatal, alguns estimam o valor de R$100 bilhões. Houve também uma tentativa de aprovar um projeto de terceirização no interior do governo, bem como reforma da previdência e reforma trabalhista, no entanto, com a chegada do governo Lula (2002 a 2006 –2007 a 2011) em 2003 o curso desse processo de aprofundamento do neoliberalismo no Brasil foi paralisado, além disso, houve a implantação de programas sociais que visaram combater a pobreza e a miséria, como Bolsa Família e Brasil Sem Miséria, no qual 36 milhões de brasileiro saíram da situação de extrema pobreza, aumento real dos salários, criação de postos de trabalho, universidades e inclusão pelo consumo com a expansão de créditos.

Há quem considere alguns elementos neoliberais no governo Lula, e apenas sintomas de um documento divulgado após eleito chamado Carta ao Povo Brasileiro, divulgado após sua eleição, no qual assumia compromissos com o mercado financeiro. Entre as características estão: dependência ao capital externo, aumento da divida pública, permanência do tripé macroeconômico com raízes no governo FHC, caracterizado por um conjunto de três elementos: metas de inflação, superávit primário e câmbio flutuante, e do próprio programa de transferência de renda Bolsa Família cuja inspiração encontra-se no economista Milton Friedman.

O neoliberalismo retorna ao Brasil a partir do segundo governo de Dilma Rousseff (2011 a 2013 e 2014 a 2016) e após o processo de impeachment tem continuidade com seu vice Michel Temer (atual), houve corte de investimentos, ajuste fiscal, paralisação de obras de infraestrutura (PAC) e encaminhamento de projetos que visavam à reforma da previdência e reforma trabalhista.


Considerações finais

O capitalismo se consolida enquanto realidade mundial através da relação periferia-centro, que por meio de um processo de subordinação politica, econômica e cultural engendrado pelos países desenvolvidos - os quais dispõem de um aparato militar, econômico e midiático de dimensões continentais - sobre os países subdesenvolvidos, funda uma nova realidade mundial globalizada, ocorre então, aquilo que podemos chamar de mundialização do espaço geográfico, o desenvolvimento técnico-cientifico-informacional altera a compreensão do espaço-tempo que antes eram encaradas como empecilhos e viabiliza uma maior difusão de conhecimento e transações comerciais. Em termos propagandísticos, a globalização se justifica na promessa de tirar do atraso os países que se encontram na periferia do sistema, em troca disso, exige a abertura comercial-financeira, alegando que os investimentos estrangeiros contribuirão para a melhora das condições de vida de seus cidadãos. Os países do centro, não acidentalmente, difundem seus valores culturais por meio de suas agências e empresas cinematográficas, dominando mercados consumidores e propagando seus valores culturais calcados no consumo em massa.

As transnacionais passam a operar em escala mundial como principal agente da globalização, através da transposição de fronteiras, e ausentes de qualquer vinculo com países, povos e culturas, de forma que modelam a estrutura político-econômica de nações que abrem suas economias obedecendo aos critérios de grandes corporações. O Estado-nação, que antes possuía alguma soberania, limita seu campo de atuação para criar novos tipos de regulamentações, reformas e atos legislativos com base nas exigências das transnacionais.

A arquitetura financeira mundial é pauta na moeda americana, o dólar, que por meio do Federal Reserve System (FED) é emitido de forma massiva sem nenhum lastro, garante o salvamento de empresas e bancos em caso de crise. A criação primária da moeda americana a partir da emissão de títulos públicos do governo norte-americano se reduz a um passe de mágica contábil, onde o intercâmbio entre uma nota promissória do governo e um cheque do Federal Reserve se transforma em um depósito do governo. A mera acumulação de reservas de dólares pelos países subdesenvolvidos constitui um mecanismo de transferência de renda para os países ricos sem nenhuma contrapartida.

O neoliberalismo dissemina a ideologia da ineficiência e corrupção estatal, ao passo que enaltece a eficiência dos mercados, exalta a competitividade e cria uma espécie de darwinismo econômico onde os mais aptos são premiados em contrapartida da exclusão e marginalização dos inaptos. A despeito de ter usado da politica através de ambientes autoritários para se perdurar no poder, paradoxalmente o neoliberalismo proclama o fim da politica, diminuindo seu raio de ação e se estabelecendo enquanto única alternativa possível. Quando da participação popular na politica, o neoliberalismo incorpora como regimento politico a democracia representativa como mediadora burocrática entre cidadão e Estado, em que pese às eleições, não passam de meros circos formados por atores coadjuvantes de grandes grupos econômicos e afiliados de grandes corporações midiáticas.



Referências
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